Como vem ai a CPI da Espionagem dos EUA no Brasil, algumas contribuições. Histórias e personagens já revelados, entre 1999 e 2004, no rastro da ação da CIA, DEA, FBI, NSA... no Brasil.
De meados dos anos 90 até o final do governo Fernando Henrique, a CIA agia dentro da Polícia Federal. Trabalhava num regime de "informação compartilhada". Para tanto, anos antes doou uma base de operação eletrônica para a PF.
Essa base, hoje conhecida como DAT- Divisão Antiterrorismo- funcionava numa instalação da PF que já se chamou CDO, SOIP E COIE. Ali só trabalhavam delegados e agentes que se submetessem ao detector de mentiras em Washington .
Para emprrestar ares de legalidade, existiram sempre acordos de cooperação. Não diretamente com CIA, DEA, NSA, obviamente, mas com o Departamento de Estado...etcetera.
Essa história começou a ser contada em março de 1999, numa sucessão de reportagens. Cinco anos depois, em duas longas entrevistas, dois delegados da PF confirmaram e deram detalhes.
Para poder trabalhar na base, o delegado José Roberto Benedito Pereira foi a Washington. Na volta o delegado produziu um documento "confidencial". Título dessa visita ao mundo da CIA: "São Tomé, Ver para crer".
Na entrevista, anos depois, diria: "Uma elite da Policia trabalhava para a CIA e se orgulhava disso. Todo mundo (na PF) sabia. Nos, não concordávamos". O delegado enfrentou. E se aposentou.
Outro delegado, Rômulo Menezes, que trabalhou também na Corregedoria da PF, produziu à época corajoso relatório. Disse ele não existir amparo legal para a tal base na PF funcionar com subvenção norte-americana.
Rômulo colheu depoimentos de 14 agentes e delegados. Num dos depoimentos, e isso está no documento, se afirma:
-Toda infraestrutura física e material do CDO foi e é bancada pela CIA.
O então Chefe da Casa Militar, general Alberto Cardoso, criticou a "desenvoltura" da CIA. Como se sabe, militares prestam mais atenção a isso do que os civis. E, pelo que se via -ou não se via- bem mais atenção do que a própria mídia.
Walter Maierovitch chefiava a secretaria Nacional Antidrogras (SENAD) no governo Fernando Henrique. E não aceitava nem as teses nem desenvoltura dos espiões dos Estados Unidos.
No Palácio do Planalto Maierovitch chegou a interpelar quem, então, atendia como titular da embaixada, James Derham, e a ele disse:
- Se a CIA e a DEA não respeitarem o Brasil eu vou brigar, porque isso será uma afronta ao presidente da República. Maierovitch foi derrubado da SENAD.
Estes são apenas detalhes de uma longa história de permissividade. Se a CPI quiser, personagens, histórias, documentos, os fatos estão por ai.
Como gringos costumam se apaixonar pelo Brasil tropical, quem sabe os Misters Graig Peter Osh e Jack Ferraro, entre tantos outros, ainda estão entre nós. Mesmo depois de aposentados.
Tema: Política