Olhamos para reportagens destas e toda a alma se nos ilumina. Elas são a prova de que nem tudo se perdeu ainda, na epopeia dos homens da ria.
As suas águas, lençóis de prata, que espelham rostos e almas, vão resistindo ao infortúnio a que a evolução de tantas coisas inúteis as condenou. Se pensarmos bem, ouvimos histórias como estas, de há cinquenta anos, e concluímos que destruímos tanta coisa, em nome de um desenvolvimento que só serviu a alguns. Quantos há que estão piores, hoje...
Ainda assim vão resistindo: a ria, as águas, alguns homens e o seu testemunho. E as tradições, esse tanto que recebemos por herança, por carolice destes heróis, que tal como a ria, se recusam a render-se.
São homens como este que nos vão alimentando a esperança. Os filhos das vagas, dos canais, da bruma, das ilhas de junco, das barcadas, das varas e das velas. Os que arrastam os Moliceiros com a mesma teimosia com que vão arrastando a vida, no constante passar das horas, dos dias e dos anos.
O Ti Zé Rebeço é a prova viva de que o corpo e a mente só têm a idade que lhes permitirmos. Homem de palmo e meio, que pega na gadanha com a mesma pujança com que agarrou as rédeas da sua sina e a domou, trocando as voltas a uma miséria anunciada e conquistando um futuro melhor, para si e para os seus.
Ainda hoje, como acontece todos os anos, salta para as ilhas e carrega o barco de junco, como fazia nos seus tempos de rapaz. A mesma técnica, a mesma lida... porque na sua casa a horta ainda se semeia à moda antiga. O junco, pisado e fermentado aos pés do gado, serve depois de fertilizante para o campo.
Um processo que começa na ria e termina na mesa, todo feito por suas mãos. Mãos de trabalho. Mãos que são o seu estandarte. Evidência de um saber que ostenta com orgulho. Mãos que falam por si e que embalam a quem as observa...
Texto de: Francisco José Rito