Verdadeiro? Exagerado? Chocante? Depende de por onde você olhe. Só não podemos é virar as costas para a dura realidade carioca justamente quando se projetam investimentos e faturamento altos com a Copa do Mundo e as Olimpíadas. Ao mesmo tempo em que se planta a imagem de um Rio paradisíaco, temos na verdade um Rio cada vez mais violento e perverso, seja com seus habitantes, seja com os visitantes. As estatísticas aterrorizadoras não deixam mentir. É uma dura real que tem que ser encarada de frente, seja lá como for.
Por isso, a Bucaneira tomou a atitude de deixar um pouco de lado a linha 'wonderfull city', obviamente mais prazerosa, para passar com você por um outro caminho mais realista e triste: o da reflexão. Ele atravessa justamente o lado pobre e degradante das nossas comunidades carentes, a poucos quilômetros das nossas praias de cartão postal. É claro que carregamos nas tintas. Queríamos justamente imagens que refletissem o Rio de hoje, muito diferente daqueles, românticos, nos anos 60-70, quando o samba foi criado. Para isso, com a intenção de fazer uma crônica bem crua, buscamos uma narrativa e fotos bem atuais, dessas que estão todos os dias nas páginas dos jornais. Nós aqui da Bucaneira não conseguimos fingir que as mazelas não existem. E temos certeza que a denúncia e a crítica explícitas são o melhor remédio, ardidas que sejam, para feridas profundas em momentos tão extremos. O que não queremos é jogar, à brasileira, sujeira para debaixo do tapete que os desavisados forasteiros vem pisar. Eles vêm para conhecer um Rio dito fantástico pela própria natureza, mas que, em fração de segundos pode se transformar num frio e feroz assassino. Agradecemos à voz apurada de Sanny Alves que, com sua versão cheia de sentimento, traduziu toda a tristeza do clima enfocado nesse 'Zelão', clássico de Sérgio Ricardo, grande compositor brasileiro sintonizado com as aflições provocadas pela desigualdade social em nosso país.